terça-feira, 17 de janeiro de 2012

BBB e o machismo nosso de cada dia

* Paula Kaufmann
Define-se reality show como um programa de TV que se baseia na vida real. Pois bem, Big Brother Brasil cumpriu com o papel de mostrar a realidade que as mulheres vivem cotidianamente. Neste fim de semana, em uma festa da casa, um dos participantes que, segundo relatos, tentava ficar com todas as participantes do programa a qualquer custo durante a noite, abusou de uma das participantes. Monique havia bebido demais e estava praticamente inconsciente em sua cama quando o sujeito se deita ao lado dela embaixo do edredom e passa a fazer movimentos claramente sexuais com a menina que aparenta estar desacordada. Transtornada e sem lembrar o que aconteceu, a moça passou todo o dia seguinte tentando entender o que havia acontecido, enquanto o rapaz apenas dizia que foram alguns beijos e mãos aqui e ali. A Rede Globo (a mesma emissora que vê graça em quadro de comédia de abuso sexual em metrô) vem fugindo da responsabilidade, dizendo que nada aconteceu. O âncora do BBB, Pedro Bial, acha que o caso é uma linda história de amor.
Com a grande repercussão do caso, ouvimos comentários como “quem mandou beber tanto” ou “a menina deveria se comportar melhor” ou ainda “quem mandou ser maria chuteira”. A culpabilização da vítima é recorrente nos casos de estupro e deve ser combatida. É comum vermos a vida sexual e o comportamento das vítimas de estupro e abuso sexual serem questionados já que se estabelece como ideal o comportamento assexuado, puro e dócil para a mulher. Quando se foge a esse padrão a culpa da violência é atribuída, nem sempre inteiramente, mas pelo menos parcialmente à mulher. Ela que não deveria ter bebido demais. Ela que não deveria usar uma roupa curta. Ela que não deveria andar pela rua escura. Como as Marchas das Vadias ao redor do mundo mostraram em 2011, a roupa que usamos não é um convite, o nosso comportamento não é o culpado. A culpa é do agressor. A culpa é do machismo com que somos obrigadas a conviver diariamente.
Casos de estupro de vulnerável (que é crime, segundo o Código Penal) acontecem cotidianamente. Casos como esse, veiculado em rede nacional e ainda acobertados pela emissora reforçam que abusar do corpo de mulheres que não se encontram em estado de possível reação é uma atitude tolerável e que passa impune.
Acaba de ser anunciado ao vivo no programa que Daniel foi expulso do reality show. Essa é uma vitória da luta contra o machismo dando o exemplo de que atitudes como essa são inaceitáveis e não podem passar impunes! No entanto, a eliminação do participante era a mínima atitude que a Rede Globo deveria ter. A responsabilização de Daniel pelo crime que cometeu em rede nacional bem como da emissora devem ser garantidas o quanto antes para que não se reproduza a impunidade dos agressores em casos de violência contra a mulher, como vemos cotidianamente. A Globo é uma emissora de alcance nacional e por isso deve ter responsabilidade social com o conteúdo que veicula e não atender os interesses dos grandes conglomerados econômicos que mantêm financeiramente o canal. Atitudes como a de Daniel são também resultado de um conteúdo constantemente veiculado pela Rede Globo que objetifica e reifica o corpo da mulher.
Ao contrário do que disse Pedro Bial ao anunciar a eliminação de Daniel, o show não deve continuar. Exclusão do programa não basta! Exigimos que os culpados sejam responsabilizados e que a reprodução de valores machistas não siga sendo encarada com naturalidade. O combate a esse tipo de atitude deve ser firme e inflexível. Não toleraremos nenhuma violência ou abuso! Pela autonomia de nosso corpo!
Paula Kaufmann é estudante de Ciências Sociais na USP e militante do Juntas! – A luta das mulheres muda o mundo!

Visite o Blog do Juntas! - A Luta das mulheres muda o mundo!: http://juntos.org.br/juntos/juntas/

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O aumento da violência contra mulheres em Santarém não é diferente do restante do Brasil e do mundo

Nesta última terça feira (10.01.2012) foi divulgada nos meios de comunicação de Santarém a lamentável notícia de que uma família foi assaltada. O acusado estuprou uma das vítimas, uma menina de apenas 12 anos de idade dentro da própria casa e na frente dos familiares.
Infelizmente esse não é um caso isolado de violência sexual contra crianças, pelo contrário, é muito mais comum do que a maioria das pessoas possam imaginar. Dados do Conselho tutelar de 2009 mostram que no Oeste do Pará estão os maiores índices de casos de abuso sexual contra crianças. Em Santarém, os números têm aumentado a cada ano, somente entre os meses de Janeiro a Abril de 2011 os registros de casos de violência e exploração sexual contra crianças e adolescentes foram de 17 casos, dos quais dois foram de exploração sexual, ao final do ano de 2011 os relatórios do Conselho Tutelar de Santarém apontam um total de 49 casos de estupro contra 18 casos do ano anterior, ou seja, percebe-se que os números triplicaram. Desse total de estupros a maioria são contra meninas, 40 meninas e 9 meninos, exatamente, a grande maioria de meninas! Não devemos nos iludir pensando que isso é meramente fruto do acaso, Não! O fato é que nós mulheres sofremos historicamente todo o tipo de violência que se possa imaginar e quando se fala de mulheres pobres e negras a situação piora consideravelmente.
Além dos altos índices de estupros, a mercantilização de nossos corpos, a partir do tráfico de mulheres pelo mundo contabiliza a terceira maior rede de tráfico do planeta, perdendo apenas para armas e drogas. No Brasil, os índices de violência contra mulheres são alarmantes, segundo informações no site da Fundação Perseu Abramo a realidade da violência contra a mulher no Brasil é a seguinte:
Segundo o Mapa da Violência 2010, realizado pelo Instituto Sangari, uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil, o que faz do país o 12° no ranking mundial de assassinatos de mulheres. 40% dessas mulheres têm entre 18 e 30 anos. A maioria das vítimas é morta por parentes, maridos, namorados, ex-companheiros ou homens que foram rejeitados por elas.
Em dez anos (de 1997 a 2007), 41.532 meninas e adultas foram assassinadas, segundo o Mapa da Violência 2010, estudo dos homicídios feito com base nos dados do SUS. A média brasileira é de 3,9 mortes por 100 mil habitantes; e o estado mais violento para as mulheres é o Espírito Santo, com um índice de 10,3 mortes. No Rio, o 8 mais violento, a taxa é de 5,1 mortes. Em São Paulo a taxa é de 2,8.
Dados do Disque-Denúncia, do Governo Federal, mostram que a violência ocorre na frente dos filhos: 68% assistem às agressões e 15% sofrem violência física com as mães. A violência contra a mulher é a maior preocupação para 56% das mulheres entrevistadas pela pesquisa realizada por IBOPE e Instituto Avon em 2009. A mesma pesquisa aponta que 55% dos entrevistados conhecem pelo menos um caso de violência doméstica.
Segundo pesquisa realizada pela Subsecretaria de Pesquisa e Opinião Pública do Senado Federal em 2005, 40% das entrevistadas declararam já ter presenciado algum ato de violência contra mulheres e 17% afirmaram já ter sofrido violência, sendo que dessas, 55% sofreram violência física, 24% violência psicológica, 14% violência moral e 7% violência sexual.
Entre as mulheres agredidas, 71% foram vítimas mais de uma vez e 50% quatro vezes ou mais, segundo a mesma pesquisa. O marido ou companheiro é responsável por 65% das agressões.
Entre os homens, um em cada dez (10%) diz espontaneamente ter sofrido violência de alguma mulher (excluída a mãe). E diante de 11 modalidades de violência citadas, quase a metade (44%) já teria sofrido alguma, sobretudo algum tipo de controle ou cerceamento (35%), mas também alguma ameaça ou violência física (21%), com destaque para os que levaram tapas e apertões (14%).

Então, pelo que podemos perceber, 10% de homens revelam já ter sofrido violência por parte de uma mulher, em contrapartida a cada 2 horas uma mulher é assassinada por um homem. Vamos fazer uma reflexão sobre isso, principalmente os que dizem que a Lei Maria da Penha não tem razão de existir, pois os números estão aí pra comprovar que é Sim necessária uma política específica de não violência contra mulheres. A Lei Maria da Penha (Lei 13.340/2006) representa uma conquista importante, porém, praticamente não saiu do papel, pois os cortes no orçamento federal sempre são em cima de programas sociais, a Secretaria Especial de Políticas para Mulheres, por exemplo, executou menos de 10% do parco recurso destinado ao combate à violência, a Lei nem sempre garante a proteção à mulher e punição ao agressor. No Brasil são cerca de 400 delegacias da mulher para mais de 5 mil municípios e os abrigos para mulheres vítimas de violência não passam de 80. Do ponto de vista da violência moral ou psicológica, as debilidades da lei são ainda maiores, pois a assistência é completamente precária. Nos casos de Santarém o Conselho Tutelar afirma que para combater os crimes contam com um serviço de disque denúncia e com o apoio das policias, nada mais.  Portanto, é imprescindível que a Lei seja integralmente aplicada, para isso é preciso a ampliação e instrumentalização das delegacias, maior fiscalização, novos abrigos, criação de campanhas contra a violência à mulher. Além disso, políticas públicas visando à geração de emprego e formação para ingresso no mercado de trabalho são fundamentais a essas mulheres.
Não podemos tolerar que casos como esse da menina de Santarém e tantos outros pelo Brasil e pelo mundo continuem acontecendo e que não tenhamos tratamento adequado para as vítimas, por isso, é necessário nos organizamos, só a luta e a organização será capaz de mudar essa realidade.  Nós do Coletivo de Mulheres Rosas de Liberdade acreditamos que só por meio de uma maior participação das mulheres nos espaços organizados no mundo do trabalho e da política que será possível uma mudança significativa a atual relação entre homens e mulheres. 

Tatianne Picanço Rabêlo.
Coletivo de Mulheres Rosas de Liberdade.

Fontes: site fundação Perseu Abramo, site Fundação Lauro Campos, Revista Feminista Socialismo e Liberdade, ano III, n°9.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Juntas!

Conheça o Juntas! A luta das mulheres muda o mundo.
http://juntos.org.br/juntas/

Por Justiça, Respeito e Igualdade: Somos as Rosas de Liberdade!

Depois de um período sem publicações estamos de volta, agora com muito mais energia que antes. Ao longo das últimas semanas nós Rosas não descansamos, pelo contrário, participamos de diversas atividades que enriqueceram e motivaram ainda mais a nossa luta contra o machismo e todas as outras formas de opressão. Fomos a Goiânia e participamos do I Encontro Nacional do Juntos! Juventude em Luta, onde tivemos contato com as militantes do Juntas!. No 52º Congresso da UNE, as Rosas de Liberdade tiraram a camisa (no sentido literal da palavra) e ao som de “Quem não pula é machista” e “Sou feminista, sou radical. Não sou capacho do governo federal” a Serra Dourada toda tremeu. Agora de volta, retomamos as atividades com muito mais fibra que antes, pois não estamos sozinhas na luta!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Reunião de Formação

O Coletivo de Mulheres Rosas de Liberdade convida a tod@s a participar da próxima reunião de formação que será realizada no sábado, dia 11, às 16:00 horas no Malocão do Parque da Cidade.
O texto base utilizado - Feminizar é preciso - por uma cultura filógina da professora da Unicamp Margareth Rago - está disponível em http://www.scielo.br/pdf/spp/v15n3/a09v15n3.pdf.

FEMINIZAR É PRECISO

por uma cultura filógina*


O texto de Margareth Rago, que está disponível em http://www.scielo.br/pdf/spp/v15n3/a09v15n3.pdf, será utilizado como base para os estudos na Reunião de Formação de 11/06/2011.
O texto traz algumas reflexões sobre o lugar do feminino em nossa cultura, tomando como ponto de partida a recorrente estigmatização da feminista como frustrada, assexuada e mal-amada. Pergunta pelas reações misóginas que a luta pela emancipação das mulheres tem provocado ao longo de sua história e sugere alternativamente a possibilidade da construção de uma cultura filógina.
Palavras-chaves: feminismo; poder; discurso médico; sexualidade; filoginia.

* MARGARETH  RAGO é professora do Departamento de História da Unicamp.


quarta-feira, 8 de junho de 2011

Marcha das Vadias: “Não nos digam como nos vestir. Digam aos homens para não estuprarem.”*

Janaína Calu**
@calupsita

SlutWalk: “Don´t tell us how to dress. Tell man not to rape.”

A frase acima estava estampada em um dos centenas de cartazes que levavam mensagens durante a SlutWalk, ou Marcha das Vadias, que aconteceu no dia 7 de maio deste ano e reuniu mais de  duas mil pessoas em Boston, EUA.
SlutWalk teve origem na cidade de Toronto, no Canadá, e foi organizada como forma de protesto contra uma declaração do policial Michael Sanguinetti, em uma conferência sobre segurança na Universidade de York. O agente policial fez a seguinte afirmação: “Vocês sabem, eu acho que nós estamos fazendo rodeios aqui. Disseram-me que eu não deveria dizer isso, mas as mulheres devem evitar se vestir como vagabundas, para não se tornarem vítimas de ataques sexuais”.
O policial foi repreendido pela polícia de Toronto, mas certamente o objetivo das manifestações é muito maior. Trata-se de chamar atenção para a ideia tão aceita de que as  vítimas de violência/estupro são responsáveis pelo acontecimento, além de reafirmar a autodeterminação das mulheres sobre os seus corpos.
O termo vadias (slut) foi escolhido por conta do seu uso recorrente como forma de insulto para o comportamento das mulheres que não se enquadram de alguma maneira às regras socialmente impostas. As mulheres em marcha então, se apropriam dessa palavra e reivindicam a autonomia para se vestirem e se comportarem da forma que acharem melhor, sem que isso justifique qualquer forma de violência.

A CULTURA DO ESTUPRO

Soma-se a isso a cultura predominante em nossa sociedade, que reforça uma lógica permissiva, em que os homens se sentem confortáveis o suficiente para desrespeitar a vontade das mulheres e extrapolar os limites da sua individualidade, inclusive através da violência física.
Durante a apuração, mesmo que informal, de casos de estupro, é bastante comum o questionamento sobre o comportamento e a vida sexual da vítima, como se algum desses elementos pudesse justificar o ocorrido ou amenizar a responsabilidade do agressor.
Essa lógica parte do princípio de abstração da existência da vida sexual das mulheres, que são violentadas por sentirem desejo e, acima de tudo, por realizarem seus desejos, ou simplesmente por serem mulheres, às quais é negada qualquer forma de decisão sobre seus corpos.
A repressão sexual é uma forma bastante eficiente de controle sobre a vida e o comportamento de todas/os, mas particularmente as mulheres sofrem com a existência desse instrumento de dominação. Em primeiro lugar, por conta da divisão de papéis na sociedade, em que cabe aos homens o exercício pleno do poder, manifestado das mais diversas formas. Em seguida, por carregarem historicamente a imagem da “mulher” associada à da “mãe”, pura, assexuada e impossibilitada de sentir prazer.
De acordo com esse raciocínio, violentar ou estuprar uma “vadia”, não se encaixa na categoria de violência e não se configura exatamente um estupro, já que essa mulher rompeu com as normas comportamentais, não merece respeito e deve arcar com as conseqüências.
A permeabilidade das Marchas das Vadias pelo mundo deixa nítido o quanto essa cultura opressora se mantém nas mais diversas realidades e que o desenvolvimento econômico, como nos casos do Canadá, Estados Unidos e União Européia, não a supera nem promove necessariamente relações mais equilibradas entre homens e mulheres.

MANIFESTAÇÕES PELO MUNDO

Mulheres de diversos países estão mobilizadas na construção das marchas e a agenda de manifestações pode ser conferida no site oficial da SlutWalk de Toronto:http://www.slutwalktoronto.com/satellite.
Na cidade de São Paulo, a Marcha das Vagabundas será no dia 04 de junho, às 14h naPraça da República.




  • slut
n 1 mulher relaxada, sórdida, suja. 2 mulher de moral baixa. 3sl cadela, puta. vadia
  • vadia
Acepções
■ substantivo feminino
Regionalismo: Brasil. Uso: informal, pejorativo.
mulher que, sem viver da prostituição, leva vida devassa ou amoral
Sinônimos
vagabunda; ver tb. sinonímia de meretriz
  • puta
Acepções
■ substantivo feminino
Uso: tabuísmo.
1 m.q. prostituta
2 Uso: pejorativo.
qualquer mulher lúbrica que se entregue à libertinagem

* Texto disponível em http://juntos.org.br/juntas/2011/05/marcha-das-vadias-nao-nos-digam-como-nos-vestir-digam-aos-homens-para-nao-estuprarem-%E2%80%9D/ (Blog Juntas!)

** Estudante de Nutrição da USP e colaboradora do Juntos!